[pt-BR] Método: este. Objetivo: procura-se.
Se você perguntar qual é o significado da palavra "objetivo" e, em seguida, o da palavra "método", eu arrisco dizer que a maioria das pessoas os enunciaria mais ou menos da mesma forma, dizendo, com suas próprias palavras, que "objetivo" é onde você quer chegar e "método" é a maneira como você chega lá. Enunciar o significado dessas palavras é um exercício simples, mas tendo vivido boa parte dos primeiros anos de minha vida profissional entre o emprego na indústria de software e a pesquisa acadêmica em computação, eu posso afirmar que, a despeito do quão simples é enunciá-los, distinguir na prática entre esses dois conceitos representa uma dificuldade surpreendentemente comum.
Se você repetir o mesmo exercício com a palavra "inovação", honestamente, eu duvido que as respostas fossem tão homogêneas. Não obstante, dos desdobramentos da elevação dessa palavra a lugar-comum, a maioria das pessoas parece esperar que verta o resultado a que levariam as meras compreensão e aplicação prática consistente dos conceitos de objetivo e método: solucionar problemas.
De fato, esse fundamento básico--a existência de um problema--é fator determinante para a realização de esforços visando uma solução. Não há de se falar em solução sem que, antes, exista problema: uma solução sem um problema simplesmente não o é. Essa constatação pode parecer óbvia, mas é importante colocá-la com a maior clareza possível, uma vez que parte do esforço que se convenciona chamar de inovador perverte essa lógica. Por vezes, fala-se de solução antes. O problema, procura-se depois. É nessa inversão que têm origem constrangimentos como a rejeição cabal dos óculos de realidade aumentada, por exemplo.
Ocorre que, primariamente, um esforço de pesquisa aplicada deve começar pela observação de um problema. Estando o problema razoavelmente bem compreendido e delimitado, dele deriva-se questões de pesquisa. Uma vez elaboradas as questões, possíveis respostas são enunciadas. A essas possíveis respostas, dá-se o nome de hipóteses. Em última instância, todo o esforço de pesquisa a partir desse ponto pode ser resumido como um processo rigoroso de busca honesta pela confirmação ou pela negação das hipóteses derivadas das questões de pesquisa. É nos raros crepúsculos desse processo em que os resultados são inéditos que residem a novidade e o avanço tecnológico.
O objetivo central desse processo, portanto, é encontrar respostas às questões derivadas de um problema concreto. Essas respostas podem desvelar uma perspectiva completamente nova à abordagem do problema que desencadeou todo o esforço, levando a soluções. Com efeito, um caso legítimo--e comum--de pesquisa é avaliar a viabilidade de aplicar um determinado arcabouço metodológico--proposto ou previamente conhecido--à abordagem de um problema--que pode ou não já ter outras soluções conhecidas. Instâncias de pesquisa assim formatadas estariam em plena consonância com o que parece ser uma aspiração comum hoje em dia: experimentar a aplicabilidade de tecnologias emergentes.
Essa aspiração é importantíssima: explorar os limites de uma tecnologia, além de motivar desenvolvimentos subsequentes dessa mesma tecnologia, pode levar a soluções inéditas para os problemas examinados sob sua ótica. Disso, inegavelmente, também resulta avanço tecnológico. Entretanto, embora relevante, essa abordagem exploratória dos limites de tecnologias emergentes deveria ser um componente tão somente secundário do avanço tecnológico em direção à solução de problemas práticos, não a regra, mas não parece ser essa a orientação do esforço contemporâneo de pesquisa aplicada. Ademais, é muito fácil extrapolar o limiar saudável dessa aspiração e incorrer em abusos: é importante observar que o foco é avaliar a aplicação do método à solução do problema, não forçar a aplicação do método em subordinação a interesses externos. Compreender a diferença entre essas motivações é fundamental.
No entanto, atualmente, um interesse externo em particular parece ter adquirido especial protagonismo na perversão da lógica que deveria reger o avanço tecnológico: estar na moda. Não incomum, perverte-se o objetivo. De encontrar respostas para problemas, ele passa a ser encontrar problemas que possam ser respondidos empregando o arcabouço metodológico de interesse. Este, via de regra, coincide com o assunto em alta no noticiário de tecnologia. Talvez o exemplo mais recente de fracasso rotundo motivado por deslumbramento dessa sorte, levando ao desenvolvimento de solução sem problema que a precedesse, seja a integração de agentes de Inteligência Artificial a sistemas operacionais para desktop e a aceitação praticamente nula que resultou disso.
Em suma, é preciso compreender que objetivo e método são duas coisas completamente diferentes. Em especial, não se pode confundir a aplicação de um determinado método com o objetivo em si mesmo de um processo de pesquisa aplicada, e prestar atenção à realidade tangível pode ser fundamental para evitar incorrer nessa confusão. Essa ideia pode ser traduzida para procurar entender situações de maneira razoavelmente clara antes de buscar possibilidades de intervenção. Certa vez, recebi de um engenheiro sênior a mim um conselho que eu jamais esqueci, cujo teor óbvio não deve ser subestimado e que, em muitas ocasiões, eu mesmo transmiti aos meus alunos de programação: entenda o problema antes de querer propor uma solução. Sem dúvida, seria benéfico se esse conselho--e a paciência que praticá-lo requer--balizasse o avanço tecnológico formal.