Eduardo Vasconcelos

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[pt-BR] A engenharia, as artes plásticas e a realidade

Certa vez, eu escrevi um texto chamado "A técnica, a arte e a plenitude", publicado em outro local, tratando essencialmente do fato de ser necessário, em alguns contextos, preparo específico para enxergar beleza em produtos da engenhosidade humana, como é o caso de algoritmos criptográficos. Achei por bem de reproduzir essa reflexão aqui, com algumas atualizações, por acreditar que ela ainda é relevante, e por enxergar que eu frasearia algumas coisas de maneira diferente, se fosse escrevê-la hoje. Com a devida licença de originalidade, eis aqui "A engenharia, as artes plásticas e a realidade", uma reiteração de "A técnica, a arte e a plenitude."

Uma vez eu fiz uma disciplina de criptografia na Unicamp como aluno especial. O livro-texto era "Cryptography and Network Security", de William Stallings. Comprei uma cópia usada na Estante Virtual. Consegui achar uma versão impressa na Índia da terceira edição de língua inglesa. As páginas estavam amareladas e alguns capítulos, como os de estado da arte de criptografia de chave pública, já estavam desatualizados, mas como a verdade nunca muda--ou nunca foi verdade--, alguns capítulos, como os de teoria dos números, ainda estavam--e permanecem--atuais.

Outro fato relevante para a origem da reflexão aqui registrada é que a minha mãe era artista plástica amadora e, quando eu era criança, ela nos levava--meu irmão e eu--às aulas de desenho e pintura que ela fazia. Ficávamos os dois pirralhos de canto, rabiscando, enquanto a aula transcorria. Às vezes, o instrutor, que levava jeito com crianças, passava pela nossa mesinha e nos dava alguma dica, ou demonstrava como melhorar os nossos desenhos que, a julgar pela época, deviam envolver com frequência algum personagem ou alguma cena marcante de "Dragon Ball Z", como Goku Super Saiyajin 2 ou o Kamehameha lendário de Gohan, com um braço inutilizado, no clímax da batalha contra Cell.

Mais ou menos na mesma época em que eu estava fazendo essa disciplina de criptografia na Unicamp, decidi retomar esse hobby de infância e voltei a desenhar. Como eu já tinha tido contato com alguns dos conceitos e técnicas de desenho a lápis, foi fácil retomar o fio da meada. Algumas características fundamentais do processo de desenho artístico merecem especial destaque aqui: sua natureza intrinsecamente iterativa e o fato de incluir uma carga grande de decomposição. O desenhista, usando grafite ou carvão, decompõe o todo da entidade complexa que deseja representar em elementos simples, mais facilmente representáveis por si sós. Esses elementos são representados de maneira grosseira e revisitados à medida que outros elementos são adicionados à composição. Depois que o desenhista está razoavelmente satisfeito com a versão grosseira da composição e as posições e proporções dos diferentes elementos parecem corretas, ele segue à união destes, tornando as transições entre eles suaves e adicionando detalhes e coisas mais difíceis de iterar, como sombras e preenchimentos esfumaçados. A entidade complexa resultante estimula o observador a imaginar conceitos, despertar memórias e até expressar emoções.

É muito fácil estabelecer um paralelo entre esse processo e o que comumente se faz em qualquer projeto de engenharia de software razoavelmente complexo. Possivelmente por isso, comecei a refletir sobre a separação artificial que existe entre a expressão subjetiva das artes plásticas e a precisão fria da engenharia. A gota d'água foi estar deitado, um dia, por volta das 7h00, antes de sair para trabalhar, olhando para um diagrama de blocos de HMAC no livro do Stallings. Naquele momento, eu não tenho nenhuma dúvida de que, por alguns segundos, consegui apreciar aquele diagrama, não os traços já fracos sobre o papel amarelado, mas a sua estrutura lógica, abstrata, como a uma obra de arte. Eu me pergunto se não seria a estrutura abstrata do HMAC tão bela quanto a musicalidade do passeio entre a paz e a angústia, culminando em um retorno à paz, em "Clair de Lune", de Claude Debussy, ou a expressão de solidão desesperadora, mas resoluta, em "Samotny Wilk", de Alfred Kowalski, duas das poucas obras de arte que a minha escassa e viciada cultura me permitem--creio--apreciar com um pedaço da alma, pelo menos em alguma medida.

Eu simplesmente não sei--nem sei se é possível--comparar a beleza inerente a entidades tão diferentes, mas estou convencido de que, de fato, é possível enxergar beleza em produtos da engenhosidade humana tais como algoritmos e máquinas, da mesma maneira que é possível enxergar beleza em obras plásticas. Talvez seja necessário apenas algum preparo específico por parte do observador. O caso é que, desde o nascimento, somos expostos a estímulos auditivos e visuais. Eu não sei se isso é verdade, mas me parece razoável a hipótese de que talvez seja por isso que apreciar artefatos sintéticos desses tipos, ainda que de maneira grosseira, é factível mesmo sem instrução formal nas disciplinas que viabilizam sua criação através da manipulação de suas unidades fundamentais. Enxergar beleza em outros tipos de entidades, que manipulam elementos abstratos ou menos acessíveis da natureza, pode ser menos natural. Se isso for verdade--e essa especulação me parece razoável--, é provável que se possa enxergar beleza em grande parte das concepções humanas, desde que o observador tenha o devido preparo.

O problema é que o modelo vigente de produção de conhecimento tende a desestimular a abrangência que é necessária à capacidade de enxergar com boa amplitude as diversas manifestações de beleza nos igualmente diversos produtos da engenhosidade humana que permeiam a realidade. Em "A Mão Invisível", Adam Smith trata da divisão do trabalho entre os filósofos do seu tempo, que ele chama de "homens de especulação intelectual." Segundo ele, esses indivíduos devem se prestar a "não fazer nada a não ser observar tudo." E vai adiante, afirmando que "a especulação intelectual também é subdividida em um grande número de setores diferentes, e cada um deles oferece ocupação para uma categoria, ou classe, de filósofos." E acrescenta: "cada indivíduo torna-se mais perito em seu setor específico, mais trabalho é realizado como um todo, e a quantidade de conhecimento é consideravelmente aumentada por isso." Em detrimento do ideal polímata renascentista de abrangência de conhecimento, essa visão iluminista rege o mundo de hoje.

De fato, a divisão do trabalho já proporcionou--e continua proporcionando--inúmeros avanços científicos e tecnológicos em benefício da humanidade. O grande problema disso é que o foco dessa maneira de enxergar a produção de conhecimento está na agregação ao corpus da humanidade como um todo, não na apuração da limpidez das lentes através das quais cada indivíduo em particular percebe a realidade. O custo cognitivo individual disso é enorme. Eu me pergunto se não chegamos a um ponto em que a divisão do trabalho acabou por produzir um planeta de verdadeiros idiotas, no sentido mais etimológico--indivíduos tão profundamente superespecializados e tão ignorantes a outras óticas de realidade que somos incapazes de enxergar alguns poucos palmos além da névoa ao redor de nossa própria bolha de superespecialização de maneira límpida, sem nem sequer nos darmos conta disso, para nossa própria tragédia, e o que pode ser ainda pior, preenchidos por uma sensação pretensiosa de sabedoria, alimentada pelos méritos miseráveis de nossa própria superespecialização.

Por mais que eu ainda esteja muito longe de compreender isso plenamente, estou convencido de que as artes plásticas, a engenharia e as outras inúmeras especializações do conhecimento, tão trágica e artificialmente cisalhadas, compõem uma unidade coesa, grandiosa e bela. Quanto mais próximos de compreender isso estivermos, tão mais próximos ao que há de mais excelso no conhecimento e a uma percepção plenamente lúcida da realidade estaremos.

A beleza pode ser enxergada em muita coisa e, se eu olhar e não a vir, é possível que o feio e limitado seja eu. Por isso, perdoe-me a modernidade, mas este idiota prefere se permitir ser um pouco renascentista.